Sempre fui uma pessoa que sente o mundo pelos cheiros.
Quando era criança, passava horas na chácara dos meus avós colhendo flores, folhas, ervas e tudo o que despertasse a minha curiosidade para criar pequenas misturas. Naquela época eu ainda não entendia o que estava fazendo, mas hoje percebo que, de alguma forma, a Rubria já existia ali.
Os perfumes sempre ocuparam um lugar muito especial na minha vida. Nunca enxerguei uma fragrância apenas como um cheiro bonito. Para mim, ela sempre foi capaz de despertar memórias, transformar estados de espírito e dar contexto à narrativa. Talvez por isso eu tenha desenvolvido uma relação tão emocional com a perfumaria. Meu olhar sempre foi voltado para aquilo que não se vê, mas se sente.
Com o tempo, comecei a perceber que também lia as pessoas pelos perfumes. Sempre senti que uma fragrância revela muito mais do que apenas um gosto pessoal. As notas que alguém escolhe usar, aquelas que rejeita e até a forma como se relaciona com o perfume dizem muito sobre a sua essência. É como se existisse uma linguagem silenciosa que só os cheiros fossem capazes de contar.
Então essa curiosidade virou estudo. Vieram os cursos, as pesquisas, os testes, as incontáveis combinações entre matérias-primas e a descoberta da perfumaria em óleo. Foi também nesse caminho que encontrei a perfumaria ancestral e compreendi que, durante séculos, o perfume nunca foi apenas um adorno. Antes de perfumar o corpo, ele ocupava um lugar de intenção e ritual. E isso fez muito sentido para mim.
Sempre gostei de criar as minhas próprias combinações. Nunca me interessei por usar um perfume exatamente como ele nasceu. Gosto de experimentar, de construir camadas, de descobrir novas possibilidades e permitir que cada composição revele uma faceta diferente de quem somos. Talvez seja justamente por isso que os elixires em óleo tenham encontrado tanto espaço na minha vida. Eles permanecem próximos da pele, transformam-se lentamente e convivem entre si, quase como diferentes partes de uma mesma história.
A Rubria nasceu dessa combinação entre a alquimia, a perfumaria ancestral e a minha forma de enxergar o mundo. Cada elixir carrega uma intenção, um propósito e uma história construída com tempo, matérias-primas naturais e muito significado. Mais do que criar perfumes, eu quis criar composições que convidassem cada pessoa a viver esse momento de forma consciente, transformando um gesto cotidiano em um pequeno ritual de conexão consigo mesma e de despertar para o mundo os seus desejos mesmo que inconscientes.
No fim, talvez seja isso que sempre me encantou na perfumaria. A possibilidade de tornar invisível algo que, ainda assim, é capaz de transformar a maneira como nos sentimos, como nos enxergamos e como escolhemos nos expressar para o mundo.
E talvez seja justamente por isso que eu acredite que um perfume nunca fala apenas sobre como queremos ser lembrados, mas também sobre quem escolhemos ser, mesmo antes de conseguirmos colocar isso em palavras.
Giovanna Estorino Marcucci
Fundadora e Perfumista da Rubria